No céu era tudo falso
tudo em desacordo
com flores e árvores e pedras
No céu, tinha que estar sempre sério
Fugiu para o sol
e desceu pelo primeiro raio que apanhou
Hoje vive na minha aldeia comigo
É uma criança bonita, de riso natural
A mim ensinou-me tudo:
Ensinou-me a olhar para as coisas
aponta-me todas as coisas que há nas flores
mostra-me como as pedras são engraçadas
quando agente as tem nas mãos
e olha devagar para elas
A Criança Nova que habita onde vivo
dá-me uma mão a mim
e a outra à tudo o que existe
E assim
vamos os três pelo caminho que houver
saltando... e cantando... e rindo
e gozando o nosso segredo comum
que é o de saber, por toda a parte
que não há mistério no mundo
e que tudo vale a pena
A criança eterna acompanha-me sempre
A direção do meu olhar
é o seu dedo apontado
O meu ouvido atento
alegremente a todos os sons
são as cócegas que ele me faz
brincando nas orelhas
Depois ele dorme e eu o deito
Levo ao colo para dentro de casa
e deito-o, despindo-o lentamente
e como seguindo um ritual
muito limpo e todo materno
até ele estar nú
Ele dorme dentro de minha alma
e, às vezes, acorda de noite
e brinca com meus sonhos
Vira uns de pernas para o ar
põe uns em cima de outros
e bate palmas sozinho
sorrindo para meu sono
Quando eu morrer, filhinho
seja eu a criança, o mais pequeno
Pega-me tu ao colo
e leva-me para dentro de tua casa
Despe o meu ser cansado e humano
e deita-me em tua cama
e conta-me histórias, caso eu acorde
para eu tornar a adormecer
E da-me sonhos teus para eu brincar
até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é
Alberto Caieiro
tudo em desacordo
com flores e árvores e pedras
No céu, tinha que estar sempre sério
Fugiu para o sol
e desceu pelo primeiro raio que apanhou
Hoje vive na minha aldeia comigo
É uma criança bonita, de riso natural
A mim ensinou-me tudo:
Ensinou-me a olhar para as coisas
aponta-me todas as coisas que há nas flores
mostra-me como as pedras são engraçadas
quando agente as tem nas mãos
e olha devagar para elas
A Criança Nova que habita onde vivo
dá-me uma mão a mim
e a outra à tudo o que existe
E assim
vamos os três pelo caminho que houver
saltando... e cantando... e rindo
e gozando o nosso segredo comum
que é o de saber, por toda a parte
que não há mistério no mundo
e que tudo vale a pena
A criança eterna acompanha-me sempre
A direção do meu olhar
é o seu dedo apontado
O meu ouvido atento
alegremente a todos os sons
são as cócegas que ele me faz
brincando nas orelhas
Depois ele dorme e eu o deito
Levo ao colo para dentro de casa
e deito-o, despindo-o lentamente
e como seguindo um ritual
muito limpo e todo materno
até ele estar nú
Ele dorme dentro de minha alma
e, às vezes, acorda de noite
e brinca com meus sonhos
Vira uns de pernas para o ar
põe uns em cima de outros
e bate palmas sozinho
sorrindo para meu sono
Quando eu morrer, filhinho
seja eu a criança, o mais pequeno
Pega-me tu ao colo
e leva-me para dentro de tua casa
Despe o meu ser cansado e humano
e deita-me em tua cama
e conta-me histórias, caso eu acorde
para eu tornar a adormecer
E da-me sonhos teus para eu brincar
até que nasça qualquer dia
que tu sabes qual é
Alberto Caieiro
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Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir, de entrar em contato.
Ou toca, ou não toca. → Lispector
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